Finitude
Meu filho descobriu que um dia vai morrer. E eu percebi que nunca aprendi a lidar com isso.
Era de madrugada quando meu filho começou a chorar de um jeito que eu não sabia distinguir de dor ou pavor.
“Mamãe, eu não quero morrer. O Gael disse que ele vai morrer. Disse que todo mundo morre. E eu não quero ficar velhinho.”
Ele chorava copiosamente. Um garoto saudável, sem febre, sem nada que justificasse aquele choro àquela hora. Exceto a descoberta mais antiga da humanidade: a vida termina.
Abracei. Disse que ia ficar tudo bem, a mentira gentil que toda mãe sabe dizer. Rezamos juntos. Aos poucos, o corpo foi cedendo ao sono.
Mas eu fiquei acordada.
Dois dias antes, a mãe do meu padrasto tinha nos deixado. Uma bisavó que ele não chegou a conhecer, mas cujo amor ele já carrega, porque é assim que o afeto funciona: ele passa de mão em mão, mesmo quando não sabemos mais o nome de quem veio primeiro.
Não sei ao certo o que disparou a angústia no meu filho. Talvez o clima de velório que emergiu em casa. Talvez o amiguinho da escola. O que ficou é que nenhum de nós escolhe o dia em que descobre que vai morrer. A morte simplesmente aparece, às vezes com quatro anos, às três da madrugada.
Curiosamente (e essas coincidências têm um peso que eu aprendi a não ignorar), no mesmo dia em que eu vivia essa madrugada, tive a sorte de ouvir Miriam Goldenberg.
Antropóloga, professora da UFRJ, autora de A Invenção de uma Bela Velhice. Mas o que me aproximou dela antes de qualquer título foi o jeito como ela ri. Um sorriso largo, quase impróprio para alguém tão séria. Depois devoraria seu livro de memórias e entenderia melhor: ela foi uma menina silenciada que virou uma mulher que se recusou a continuar quieta.
Miriam não entra no debate do envelhecimento da hype. Não falou de proteína, de zona azul, de sono monitorado ou de spans de saúde calculados com precisão. Ela falou de um conceito, cunhado por ela, poético e profundo: escutar bonito.
Aqui vale uma digressão.
Peter Attia escreveu um livro interessante. Outlive é bem pesquisado e, para quem tem acesso, genuinamente útil. Mas existe uma certa arrogância no projeto de otimizar os últimos dez anos da sua vida para “viver bem e mais”. A obsessão com nutrição personalizada, sono de qualidade e exercícios de estabilidade é uma receita escrita por e para uma fatia muito específica da humanidade.
O homem que nunca precisou depender do SUS, que nunca escolheu entre comer bem e pagar o aluguel, que nunca foi a mulher que passa décadas cuidando de todo mundo enquanto ninguém contabiliza e valoriza esse trabalho. Esse homem escreveu um manual de longevidade. É um belo manual para quem pode segui-lo. E claro, um prato cheio para o nosso ímpeto capitalismo, que torna qualquer ideia produtos e serviços.
Mas Miriam leva a conversa do envelhecimento para outro lugar. O lugar profundo e humano que o debate merece. Falava dos idosos que chegam aos noventa com lucidez e desejo, e que o mundo insiste em tratar como crianças. Falava da diferença entre liberdade e autonomia e essa distinção me parece uma das mais importantes que existem.
Liberdade é a ausência de impedimentos externos. Autonomia vem do grego: autos, próprio; nomos, lei. É autogoverno. A capacidade de decidir o que é melhor para si mesmo, a partir dos próprios valores, mesmo dentro de limitações físicas. Uma pessoa pode ter mobilidade reduzida e ter autonomia plena. Pode estar num corpo que não responde mais e ainda assim ser a autora da própria vida.
O que fazemos com os nossos idosos é confundir as duas coisas. Quando o corpo falha, decidimos que o sujeito também falhou. Retiramos a voz, os desejos, as escolhas. Fazemos isso com a melhor das intenções. E é justamente por isso que é tão difícil de nomear o que isso é.
Ediane Ribeiro, que estava no mesmo papo com Miriam, trouxe um conceito que não saiu mais da minha cabeça: o luto antes da passagem. Esse momento específico em que a gente percebe que o pai ou a mãe que está vivo já não é exatamente o mesmo de quando éramos pequenos. É uma transformação que exige luto de uma versão que existiu e esse luto não tem um ritual, nem uma data específica. Afinal, nem morte é. É morte de ideia do que se é (do que se era).
Eu não sei quando descobri que meus pais poderiam ir embora. Não lembro do dia. Mas sei que essa descoberta ficou guardada em algum lugar que prefiro não mexer até que meu filho chora às três da manhã e tudo vem à superfície de novo.
Nesse mesmo dia, tive a sorte de também ouvir Carla Madeira e Socorro Accioly conversando. Duas das maiores escritoras que o Brasil tem hoje. E Socorro, a genia que inventou os Ressurrectos em Oração para Desaparecer, contou da vez que viu o espírito de Guimarães Rosa no apartamento em que ele escreveu Grande Sertão: Veredas.
Todos riram. Ela também riu. Mas o que ficou, para mim, foi o mistério. Aquele lugar onde nenhuma ciência ousa entrar e nenhuma religião consegue fechar completamente. Afinal, o que acontece depois?
Cada um terá sua crença, sua necessidade de acreditar em algo. Eu respeito isso. Inclusive nessas noites intensas, eu abraço meu filho e rezo com ele. Não necessariamente rezo porque sei que funcionará, mas sim porque foi a minha avó Teresinha, que já se foi e me ensinou. Prefiro acreditar que, em cada reza, ela se revela novamente para mim. E que, ao meu lado, ela e todas as outras que vieram antes delas, cuidam de mim e dos meus.
Ana Claudia Quintana Arantes, no A morte é um dia que vale a pena viver, diz que falar sobre a morte não é se preparar para o fim. É aprender a estar presente no que ainda existe.
A maioria de nós não faz isso. A maioria muda de assunto, distrai a criança, diz que vai ficar tudo bem.
Inclusive eu. Especialmente eu.
Então fica a pergunta que a madrugada deixou: se a morte é a única certeza que temos desde o início, por que aprendemos tão bem a não falar sobre ela com quem amamos?
Nessas conversas todas repletas de boas literaturas, alguém lembrou de Neruda.
Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida.
Pablo Neruda
Entre prantos de “mamãe, eu não quero que você morra”, o que resta é isso: abraçar, amar, estar presente no que ainda temos.
Que o amor nos salve.
Estrelas
Costumamos dizer para as crianças que quem parte vira estrela no céu. Não sei se é verdade. Mas sei que a arte chega onde a explicação não alcança. Osvaldo Montenegro sabia disso quando escreveu o que nenhum de nós consegue dizer direito.
“Quando eu não estiver por perto / canta aquela música que a gente ria”
Por hoje, é isso, Elucubradores!



Que texto lindo, Tami! A morte é um assunto bem difícil pra mim, mas tenho me acostumado a falar dela mais vezes. Obrigada por compartilhar as referências dos livros. Ouvi de Gregório Duvivier que, quando alguém morre, vem morar dentro da gente e às vezes sentimos o excesso daquela pessoa em nós. Um dia viveremos nas memórias e no coração das pessoas que amamos. Obrigada pela elocubração
🌷🧡