Manual de Underperformance
Sobre metas inventadas, culturas invisíveis e a liberdade de falhar
Hoje cedo, do nada, me lembrei da meta que tinha inventado para mim mesma: chegar a 1000 subscribers no meu substack, até dezembro.
Não entendo bem por quê. Talvez pelo número redondo. Talvez pelo reflexo automático de quem passou a vida em culturas organizacionais onde meta é tão natural quanto respirar.
E, claro, meu primeiro impulso foi o de sempre: resolver. Se existe uma meta, existe um problema a ser atacado.
Entrei no meu modo pragmático executiva:
– Atrair novos leitores com marcos culturais, fofocas do mundo real, cutucar grupos de WhatsApp.
– Engajar no Instagram com reels lendo trechos, carrosséis com frases fortes.
– Reter com trilhas temáticas: “3 elucubrações para quem pensa em largar tudo”.
– Sub-metas mensais bem definidas: agosto → 450, setembro → 650, dezembro → 1000.
Plano mais ou menos feito na cabeça, pensei: pronto. Agora é só execução disciplinada. Agenda bloqueada, templates no Canva, talvez até usar IA para automatizar várias coisas. O instinto gritou: é assim que se bate meta.
Mas aí veio o silêncio depois da euforia.
E eu me perguntei: pra quê mesmo? Quem definiu essa meta? Uma versão de mim algumas semanas atrás? Uma menina capturada pela cultura de resultados, acreditando que só números validam a existência?
Percebi o que sempre ensino aos meus alunos: há diferentes tipos de culturas no mundo. A de “resultados” é só uma delas. Mas quando vivemos imersos nela, esquecemos que existem outras formas de ver, medir e viver a vida. A força do hábito cultural nos engole.
Sobre isso, essa semana, tinha acabado de desenterrar um artigo muito bom sobre tipos de culturas organizacionais da HBR e tinha acabado de discutir isso com meus alunos.
E então a ficha caiu: eu não preciso ser orientada para resultados sempre. Eu não preciso dessa meta. Nada vai acontecer comigo se eu não bater 1000. A vida é muito maior do que isso.
Digressão: A Arte Machadiana de Desafiar Convenções
Foi nesse momento que me lembrei de Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas me apresentou ainda adolescente a figura de um defunto-autor narrando sua vida com o desapego de quem já não tem nada a perder.
E em Quincas Borba, Machado radicaliza explicando o Humanitismo: duas tribos famintas diante de um campo de batatas insuficiente. Se dividirem, morrem; se guerrearem, uma sobrevive e conquista mais. Daí a sentença:
“Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.”
Não é só uma frase de efeito. É uma ironia cruel sobre nossa lógica de competição e sobrevivência, sobre a corrida insaciável por vitórias que, no fundo, valem tanto quanto batatas num campo qualquer.
Talvez por isso, diante da minha própria meta, eu escolha rir. Rir da seriedade com que transformamos números em destino. Rir do vício em medir a vida como se fosse um quadro de desempenho. Rir da menina que acreditou que 1000 era o prêmio final.
Cada palavra que escrevemos é uma escolha entre seguir ou subverter. Machado escolheu subverter, rindo das próprias ambições com uma elegância que atravessa séculos.
Talvez essa seja a verdadeira vitória: ter coragem de falhar, rir com liberdade e ousar ser a falha do sistema.
Música do Dia: Epitáfio para honrar Brás Cubas
Por hoje, é isso, elucubradores. Um bom dia e força ai na sua meta. E, se por acaso, achar que não vale tanto a pena assim persegui-la, simplesmente, desista! O mundo precisa de mais desistentes livres.
beijos da Tami





Na maioria das situações, é o padrão que se revela como o verdadeiro vilão, escondido atrás do conforto da familiaridade.
É sempre interessante acompanhar as suas Elucubrações. ♥
É impressionante como você causa o efeito de "é óbvio, agora que alguém colocou em palavras."
E também muuuito maravilhosa sua capacidade de refletir sobre si (e rir de si) tão profundamente... com tanta transparência! Genuína, autêntica... demais!!!!!!