Strange Planet
Uhuu, temos uma fonte. Uhuu, o stand estava cheio. Uhuu.
Ontem, em vez do meu padrão pré-sono que é simplesmente ler um livro, me vi scrollando o LinkedIn.
(O Instagram estava fora de cogitação. De noite não quero ser bombardeada por anúncio nenhum. E o meu algoritmo de lá é um shit show completo. Culpa minha, claro. Mas isso é conversa pra outra elucubração. A que fala de como uma mente como a minha segue coisas tão aleatórias que o Instagram vira um ambiente completamente inóspito.)
Voltando.
No LinkedIn pelo menos dá pra saber o que anda acontecendo nas bolhas corporativas pelo qual eu trânsito.
E foi nesse scrolling que apareceu um post de alguém do time de branding do Nubank. Orgulhosa. Animada. Depois de cinco anos na empresa, um projeto que ela e um colega sonhava havia finalmente se realizado: a Nu agora tem uma tipografia oficial. Uma fonte própria. As letras da marca canonizadas, como Times New Roman ou Arial.
Li três vezes. Isso era um sonho?
Estou perguntando com perplexidade genuína mesmo.
Logo depois apareceu outro post. Também do Nubank (tem muitos nubankers no meu feed). Fotos felizes do stand da Nu Asset num evento do BTG Pactual. Stand cheio, equipe sorrindo.
Me lembrou quantas feiras eu já fiz na vida. E quantas vezes o sucesso daquela feira era crucial, porque feiras são marcos de captação de leads e portanto peças fundamentais da estratégia de revenue do ano de milhares de empresas Brasil afora.
Tem gente que perde sono porque está na dúvida da cor da testeira do stand.
Eu já fui essa gente.
Uma digressão necessária: e sua bolha de impacto social nisso tudo, Tami? Aqui seria fácil demais fazer o movimento de dizer que o problema é o mundo corporativo com suas métricas. Que no terceiro setor ou no governo é diferente, porque afinal as pessoas estão perseguindo coisas que parecem mais vividas: educação para todos, saneamento, moradia, redução de desigualdade, um planeta habitável.
Mas eu também já vivi esse mundo.
E também já me vi dentro daquela bolha perdendo sono com reunião de conselho. Celebrando evento de gente reunida repetindo a mesma coisa para as mesmas pessoas que já concordam com a mesma coisa. Preocupada com a performance do impacto, que às vezes tem menos a ver com o impacto e mais com a performance.
Na média, tem muito mais coisa irrelevante sendo celebrada do que transformação real e relevante acontecendo no mundo. Guardadas as devidas exceções.
Não me parece ser um comportamento meramente corporativo. Me parece mais humano mesmo.
O Nathan Pyle tem uma série chamada Strange Planet. São aliens, criaturas azuis e simpáticas, descrevendo comportamentos humanos com uma literalidade desconcertante. Avião é “máquina voadora”. A instrução de segurança de bordo vira um protocolo existencial sobre preservar sua própria existência antes da de outro ser. Uma planta de vaso é “um organismo da natureza, mas aqui dentro”.
O efeito é esse: você ri, e dois segundos depois percebe que acabou de ver algo sobre si mesmo que preferia não ter visto.
Esse é exatamente o sentimento que me dá olhando o meu feed.
Uhuu, tenho uma fonte oficial da minha marca. Uhuu, meu stand estava cheio de gente. Uhuu, meu evento de fingir que resolvo os problemas sociais sozinho foi um sucesso.
Tem uma pira coletiva aqui. Uma em que a gente valoriza um monte de coisa que, se um extraterrestre chegasse e visse, acharia a coisa mais sem pé nem cabeça do universo.
Mas então eu parei. Porque o texto estava indo pra um lugar muito fácil. O de quem olha de fora e julga.
E aí me lembrei do clássico do Viktor Frankl. Que sobreviveu aos campos de concentração nazistas e saiu de lá com uma conclusão: o ser humano busca sentido.
E quando não encontra de imediato, continua procurando. Porque a alternativa é o vazio. E o vazio é insuportável.
Então talvez a fonte do Nubank não seja absurda. Talvez a fonte seja uma resposta ao abismo.
Talvez, a gente passe a vida inteira construindo tipografias, enchendo stands, fazendo eventos de impacto porque precisa de algo para chamar de sonho. Porque sem o sonho, mesmo que seja um sonho de uma fonte da minha marca, o que sobra?
Eu não sei. E desconfio profundamente de qualquer texto que saiba.
O que eu sei é que, às vezes, scrollando o feed tarde da noite, eu me sinto exatamente como os aliens do Nathan Pyle. Observando uma espécie fascinante e completamente inexplicável.
What a curious creature. E aí lembro que eu também sou uma delas.
Obrigada por revelar esse estranho planeta que vivemos, Nathan.
Pergunte a um Gorila em que ano nós estamos?
Porque enquanto a gente passa a vida inventando fontes, enchendo stands e transformando qualquer coisa num sonho realizável, o Rubel e o Emicida ficam repetindo, como um mantra mesmo: não me deixa esquecer que a gente não precisa de nada.
E o Emicida ainda lembra, quase de passagem, que somos poeira das estrelas. Frutos do acaso, soltos no tempo como nuvens. Os aliens do Nathan Pyle provavelmente concordariam.
Não me deixa esquecer
Não me deixa esquecer
Não me deixa esquecer
Não me deixa esquecer
Não me deixa esquecerQue a gente não precisa de nada, nada (Não me deixa esquecer)
Que a gente não precisa de nada, nada (Não me deixa esquecer)
Que a gente não precisa de nada, nada (Não me deixa esquecer)
Que a gente não precisa de nada, nada (Não me deixa esquecer)
Que a gente não precisa de nada, nada (Não me deixa esquecer)Pergunte a um gorila em que ano nós estamos
Nós estamos aí, cara
Por hoje, é isso, Elucubradores.








Adorei a reflexão do julgamento sobre o julgamento, e a conexão com Viktor Frankl Tami. De fato nossa existência é 100% sustentada no simbólico e na invenção.. 😉