Tech Emotionography
Dos aeroportos ao fundo do oceano, a gente sabe muito bem o que merece um acordo tácito.
Tem algo que me intriga no aeroporto.
Em quase todo lugar do mundo, você etiqueta a bagagem, espera na esteira e pega a sua mala. A etiqueta existe para você identificar a sua no meio de outras parecidas, não como controle real de quem levou o quê. Ninguém está na saída conferindo. Há um acordo coletivo implícito de que todo viajante vai pegar a própria mala, porque mexer na mala do outro cria um problema que ninguém quer ter.
Semana passada, em Atenas, ouvi Elisabeth Braw falar sobre um livro que vai sair em outubro sobre o que fica no fundo do oceano: os cabos de fibra ótica e os dutos de gás que conectam o mundo inteiro abaixo da superfície. Passada certa distância da costa, o oceano não pertence a ninguém. É de todos, o que talvez seja a mesma coisa. E ainda assim existe uma rede tácita de manutenção desses cabos, porque a internet, as transações, a bolsa, dependem deles. Nenhum país assinou tratado solene sobre isso. O acordo foi sendo construído porque a alternativa era inimaginável para todo mundo. Até que…
Nas malas, o medo é individual. Nos cabos, é coletivo. Acordos nascidos de lógicas diferentes, mas a mesma disposição de cumprir sem que ninguém precise pedir. Ou não.
Fiquei pensando nas novas regras não-escritas que estão surgindo em volta da IA.
Tem uma inquisição estranha acontecendo em vários ambientes profissionais, onde parte do trabalho de muita gente virou parecer que não usou IA, ou pelo menos não só apertou um botão. Uma supervalorização do prompt, como se o prompt fosse a obra. Uma corrida para humanizar textos gerados, para que a autoria apareça mais limpa, mais sua. Em Atenas, também conheci a Pamela Pavliscak, que estuda as emoções que estão emergindo entre humanos e máquinas e batizou o próprio campo de tech emotionography. Pamela é uma querida, e eu fiquei com aquela conversa na cabeça durante dias.
Porque há algo de paradoxal nisso: a gente está desenvolvendo laços com as máquinas, inventando palavras para o que sente em relação a elas, e ao mesmo tempo escondendo esses laços publicamente. O que se protege nessa inquisição, acho eu, é a evidência de que existe um humano pensando ali. Se a máquina faz o mesmo por centavos, o contrato vacila.
O curioso é que não há acordo tácito de que quando um amigo liga você para o que está fazendo e pergunta como ele está. Eu vejo a chamada entrar, reconheço quem era, e penso “depois respondo”, como se a presença do outro precisasse disputar espaço na minha agenda de eficiência. Não há acordo de que quando uma notícia triste chega a gente deixa o corpo processar, fica quieto, chora se precisar. Não há acordo de que quando seu filho chega da escola você larga o que está fazendo e quer saber como foi o dia, de verdade, sem metade da atenção em outra tela.
Entro em salas de conselho onde cada pessoa, individualmente, quer o bem do negócio e das pessoas. E coletivamente, com uma frequência que me espanta, a decisão que sai é de curto prazo, defensiva, voltada para o próximo trimestre. O acordo coletivo tem uma lógica própria e ela às vezes não obedece ao que cada um carrega quando entra na sala. O primeiro contrato de cada um nessa sala é com a sobrevivência do próprio lugar nela. Inclusive eu.
Sei lá. Talvez a pergunta não seja por que a gente protege os relatórios.
Talvez seja por que a gente quer se manter mais inteligente que supercomputadores ao invés de ser simplesmente mais humano.
Nosso dom de iludir
A gente tem o dom de se iludir. Caetano sempre soube.
Eu sei. E você sabe.
Você sabe explicar
Você sabe entender
Tudo bem
Você está, você é
Você faz, você quer, você temVocê diz a verdade
E a verdade é o seu dom de iludir
Como pode querer que a mulher
Vá viver sem mentir
Para hoje, na voz dela, claro. Gal.
Nota da autora
Esse texto, eu estava com preguiça de escrever inteiro, do meu jeito, com minhas palavras. Joguei o que estava na minha cabeça para o Claudinho. Não gostei. Gastei tempo reescrevendo, mas a ideia principal não mudou. Gastei esse tempo porque me incomoda não ser exatamente a palavra que eu usaria, mas também nem importava tanto. Só queria contar para meia dúzia de pessoas que me lê que achei fascinante as ideias da Elizabeth e da Pamela.
Mas ai, me vi num dos sentimentos que a Pamela estuda: a frustração com o slop work. Ela deve ter um nome exato pra isso. Não sei qual é. Pedi pro Claudinho pesquisar e ele também não achou. Enquanto eu me debatia nisso aqui eu podia estar dormindo, tomando café, observando os passarinhos. A ideia já estava aqui.
Afinal, por que “overthink”?
Por que sim, porque é isso que nos torna humanos. For god’s sake.
Por hoje, é isso, Elucubradores.


